segunda-feira, 30 de março de 2015

Tocaste-me assim, suave,
Mostraste-me como o mundo não tem sabor sem as tuas palavras,
Sem o orgulho de mais uma luta de braços.
Que as bocas se calem, nestes silêncios indistintos.
Que o mundo se abafe entre um abraço,
Neste amasso, neste teu sopro ao ouvido.
Seja o sorriso o nosso código,
Entre dias que correm e luar que nos deslumbra a face,
As mãos dadas e os cabelos suados.
E mala não traz nada,
Carregada de um peso que só deuses discutem. Agora.

terça-feira, 17 de março de 2015

Doeu, mas ergueu as asas como se nada estivesse partido. A cada braçada, o céu era mais seu e o horizonte mais limpo, mais impenetrável por todo o embaciamento social. Sentia o ar entre si, sentia o prazer afastar aquela dor enorme. Como era possível um coração sangrar tanto e mesmo assim viver?
Corriam as lágrimas, corriam como rios pelo corpo. Queria apagar, e cortava o vento com mais e mais força, como se aquela dor lhe desse novas forças nas pernas, novos argumentos para dar mais um passo.
Queria magoá-lo. Queria ser má e acabar com o umbigo da sua dor. Queria apagar os dias, queria apagar as malditas gargalhadas e aqueles braços enrolados no seu íntimo nu. Queria apagar as manhãs em que o sol lhe batia no peito e o tornava mais belo, e as noites em que se embrulhava nela e dizia: "Vou-te proteger sempre; vou-te amar sempre.".
A mentira agora era um estalo constante. Cortava, sarava, e voltava a cortar no mesmo sítio, sem dó da inflamação crescente que causava. Sentia-se um nada, para quem antes era um tudo. Ou sonhara ser.
Continuava a voar, na esperança de que era mais um dia para se levantar enfim. Continuava a chorar.
Estava embriagada. Vinha com os pés tortos, a tentar manter uma postura séria, com uma alça descaída naquele vestido que a tornava tão bonita. Nem com as faces rosadas ficava decomposta da sua elegância, do seu pescoço delgado coberto pelos cabelos desgrenhados. Disse-me para trazer chá num termus. Para vir de carro e trazer um cobertor; disse que tinha planos para um parágrafo da nossa vida.
- Eu não estou bêbada. - disse, enquanto tentava sentar-se no carro, e o vestido descaia-lhe ainda mais no peito. Era impossível não ficar fascinado; não ficar seduzido por aquele corpo selvagem.
Ela notou o meu olhar, sorriu, mas como qualquer pessoa aquecido pelo álcool, tentou acreditar que eu não vi. Retomou a compostura séria e disse:
- Leva-me às montanhas. Ao local mais escuro das montanhas que conheças. Não quero pessoas, não quero casas, não quero luz; só quando o Sol nascer. Não digas nada.
Eu sorri e liguei a ignição. A música tocava; não me lembro sobre que falava, mas ela cantarolava-a sem controlo, sem letra, sem conhecimento. Passava os dedos no cabelo e tinha as pernas sob o tabliê, brancas e com pisaduras leves. As botas cobriam-lhe os tornozelos, e sabia que por debaixo delas estariam unhas vermelhas, já descascadas. Costumava vê-la dançar de manhã descalça; sabia os pequenos pormenores de cor.
Chegamos. Ela aprovou, saiu do carro ainda ligado, e veio-me buscar à porta. Agarrou-me para sair, segurou-me a face e mordeu-me o lábio, encostando-me ao carro. Senti o calor, senti o gin na boca dela e os seus olhos perdidos. Senti-me perdido. Ela acordou, como sempre; separou-se de mim, e puxou-me pela mão. Com o cobertos nos braços e o chá na mão, paramos numa zona inclinada, entre plantações arbustivas. Estendeu o cobertor, deitou-me, deitou-se. Ficamos de barriga para o ar.
- Quero ver as estrelas. Enquanto bebia, só pensava em ver as estrelas. E sabia que a pessoa certa eras tu. Sabes onde é a ursa maior?
- Não. Podes dizer-me?
- Ali. Não posso apontar com um dedo, mas posso indicar-te com o meu punho. Segue o meu olhar.
- Acho que estou a ver.
- Ela protege-me.
- Eu também te protejo. Posso ser a teu Urso Maior?
Sorriu, e quando parou, disse, com um brilho único:
- Tu és muito mais do que isso.
Inclinou-se para mim:
- Vamos beber o chá? Quero curar a bebedeira. Quero viver este momento sóbria.
Levantou-me, e eu fiquei sentado enquanto ela se sentava em cima de mim. Tinha o peito encostado a mim, o tronco enrolado no meu, e os olhos fixos na minha boca. Beijou-me, ainda quente do álcool, mas mais quente do desejo. Ardia, quando me trincou o lábio inferior e me desceu uma mão pelas costas  e a outra percorria o meu pescoço. A noite era nossa e as estrelas as confidentes. Por isso é que ela amava as estrelas; vim a descobrir.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Aquele risco já estava marcado; um limite à sanidade humana. Mas ela nunca foi de limites e as regras entre o seu corpo e a sua alma não se interligavam. Quando as mãos se chegavam, quando os olhares se trocavam, já havia fogo em gelo e a pele fervia.
Assim encostou-se no corpo dele, gelando-lhe o aconchego que era tão quente. Não duraria muito até a respiração ser cortada, e ambos sabiam-no - como não saber? A mão viril do rapaz desalinhava-lhe o cabelo, em gestos suaves e silenciosos. Ela cheirava-lhe o pescoço; beijava-o. E em momentos, o que era estática passava a dança.

domingo, 8 de março de 2015

Era mais um dia que lhe recortava os contornos. O vento suspirava pela janela aberta, atravessando cada limite do seu corpo nu. Fumava todas as manhãs, como quem deixava fugir do peito a força para uma nova manhã. Suspirei - a beleza dela era única.
- Levanta-te. Preciso de ajuda no café da manhã.
Queria demonstrar firmeza; queria vestir calças novamente.
- Podias ser uma princesa e trazer o pequeno-almoço ao homem da tua vida. -, disse, enquanto me levantava com movimentos breves. Ela tossiu, para esconder o meio sorriso que se desenhava, selvagem, no seu rosto. Era tão fácil roubar-lhe um sorriso.
Senti o chão frio; arrepiei-me. E ela ali, de janela aberta, corpo despido e pés descalços. Não tinha vergonha de si, da sua palidez, dos seus recortes. Seduzia-me assim. Agarrei-a com ambos os braços pela cintura e senti-lhe o aroma fresco de um banho não consentido - como não notei, como acordou tão de mansinho? Beijei-lhe o início do pescoço, encaixando o meu rosto no seu ombro.
- Mais um dia para viver?
- Um dia de cada vez.
Rodou sobre si mesma; esfregou-se no meu corpo. Senti a sua pele fria, senti o seu sorriso quente. Sabia que o dia ia correr bem, apenas pelo brilho com que me olhou.